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Opinião

Entrevista com Suuhgetsu: A mulher que trouxe libras para Summoners Rift

Entrevista com Suuhgetsu, conheça a garota que trouxe libras para Summoners Rift.

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Tive a oportunidade de conversar com Suuhgetsu, uma mulher guerreira que vem trazendo acessibilidade tanto para o League of Legends quanto para o esporte eletrônico. A entrevista é longa por contar com vários termos técnicos e informações preciosas.

Espero que vocês gostem.

Hana: Oi, Suuh, obrigada por aceitar a responder nossa entrevista, espero que as pessoas possam conhecer melhor você e seu trabalho, e para começar fale um pouco sobre você, os projetos nos quais você se envolve, sobre a organização Se apresente!

Suuh: Eu sempre fui gamer, né? Em linhas gerais, em 2014 eu fui ter o meu primeiro contato com a comunidade surda, quando meu tio trouxe uma namorada surda para casa para nos apresentar e então foi ali que eu tive meu primeiro contato. Até então, ninguém da família tinha tido contato com pessoas surdas, a gente não conhecia a língua de sinais, não conhecia a comunidade, a cultura e nem nada.

E aí eu me interessei e fiz o vestibular para UFSC enquanto eu estava terminando minha faculdade de direito na particular. Eu fui fazendo bacharel em Letras-Libras na UFSC. Eu acreditei que eu aprenderia somente libras né? Eu imaginei que seria só libras, mas não imaginei que eu iria aprender sobre a profissão que eu exerço hoje. Não foi algo que eu imaginava, mas graças a Deus aconteceu. E então eu fui aprendendo, fui me aprofundando mais e fazendo estágios como intérprete na UFSC, além disso eu fazia também outros cursos.

Eu sempre gostei de estudar e normalmente eu fico fazendo cursos de alguma coisas que eu gosto. Vejo alguma coisa e falo: “Ah, gostei!” e daí eu vou estudar mais sobre. Por exemplo, no último sábado eu aprendi sobre pessoas neuro divergentes e eu preciso muito estudar sobre isso, por que quando chegar alguém e falar sobre isso eu já vou entender!

Hana: Estudiosa!

Suuh: Tem que estudar, né? Tem que estudar! Aí, depois descobri que o meu professor de libras jogava LoL e eu acabei ficando amiga dele né? Apesar da questão de professor e aluno, a gente foi ficando amigo, fui me inserindo na comunidade e quem joga League of Legends se encontra né? Não adianta.

Hana: É, LoLzeiro se vê na rua e já fala: Lolzeiro!

Foi aí que comecei a notar algumas coisas. Nós, que somos ouvintes, nos baseamos muito pelos sons, afinal, nossa cultura é ouvinte, né? E é isso que nos difere da cultura dos surdos, eles tem uma cultura mais voltada para o visual. É meio complicado de se explicar, mas é muito diferente, são dois sentidos muito diferentes. Nós que somos ouvintes temos uma concorrência muito grande de sentidos, então a gente já tá mais acostumado com isso.

É por isso que uma pessoa que acaba perdendo um desses sentidos tem um “baque” muito grande. É muito difícil uma pessoa que sempre enxergou e de repente perde a visão se acostumar. Estamos muito acostumados em ter todos os sentidos ao mesmo tempo.

Hana: Sim, é muito mais fácil nascer né?

Suuh: É questão de costume né? Quando você nasce uma pessoa cega ou uma pessoa surda, você se cria no mundo, se desenvolve daquele determinado ponto de vista, sabe? Então para eles ter ou não a audição não faz diferença, eles já estão acostumados e habituados. Agora, nós que somos ouvintes teríamos dificuldades de atravessar a rua por exemplo… seria meio desesperador!

Daí, eu comecei a me perguntar como eles fazem nos jogos? Principalmente no LoL, como eles fazem para saber sobre as interações auditivas? O Sion, Ezreal, Corki, eu gosto de citar pelo motivo de que quando ele pega a passiva a gente tem um alerta sonoro. E dai eu fui perguntar para ele como ele fazia e etc e ele respondeu: “Ah, eu nem sabia que existiam essas interações sonoras.”

Hana: Dragão, Barão… Tudo isso tem efeito também.

Suuh: Exatamente, todo mundo escuta esses objetivos e sabe que pode estar acontecendo uma suposta luta no local, já que tem um resquício de som e isso acaba sendo uma desvantagem. Se ninguém tivesse essa informação, não teria problema. Como nós temos, e eles não tem, isso pode influenciar demais. Você saber sobre o momento do spawn do dragão de forma mais instantânea, principalmente para uma pessoa que está jogando na ‘selva’, faz toda a diferença.

Por exemplo, quando você usa o flash, tem o efeito sonoro e o efeito visual. Eu acho que deveria piscar um pop up ou alguma coisa mais sutil na tela para ajudar. Claro, que tem que ser uma coisa totalmente equilibrada. Não tem como colocar muito para um e para outros. Existem pessoas que até dizem que: “Ah, sei como é porque já joguei sem som” – mas gente, não é a mesma coisa! Se a gente pensar em um FPS, por exemplo, como a gente vai jogar sem som? Quando você é ouvinte e tira o som, você tem dificuldade, legal. Mas você continua com sua carga histórica.

Quando você é surdo você só trabalha nesse campo visual. Não dá pra dizer, não existe essa noção do que pode acontecer… Não dá para igualar essa experiência de você jogar um dia sem som e jogar a vida inteira.

Inclusive, foi o jogo 7 Days to Die que me fez estudar isso. 7 Days to Die é um jogo de sobrevivência zumbi e ele tem toda uma carga de nervosismo por conta dos zumbis e de toda a atmosfera sonora. Foi aí que comecei a pesquisar e escrever um artigo sobre isso. Isso também acontece em filmes. Dependendo do tom da música, a gente já sabe de coisas que podem vir como, por exemplo, um jump scare.

Se um galho quebrasse durante o dia é uma coisa, agora se quebrar a noite, todo mundo sai correndo.

Hana: Agora me fala um pouco do projeto Sakura. É um time? Uma organização? Como o projeto funciona?

Suuh: Sobre a Sakuras Esports, existem duas linhas gerais que geralmente as pessoas seguem. Primeiro que não é Sakura, mas na verdade é SAKURAS. Segundo que as pessoas acham que é um time, mas não é um time. E por último, antigamente, era apenas um projeto chamado Projeto Sakuras Esports e como ele foi se desenvolvendo e deu certo, os idealizadores conseguiram atingir o objetivo do projeto. Desse projeto surgiu uma organização, que propõe um projeto 100% feminino para o público feminino no eSports.

Dentro da organização temos workshops, torneios, mas não existe um time específico. Temos as streamers da Sakuras… eu na Sakuras sou streamer e intérprete de libras. Eu faço a parte da interpretação quando tem vídeos e também implementamos legendagem quando necessário. As Sakuras fazem tudo pelo cenário feminino. Se existe um torneio acontecendo, elas prestam suporte, apoio… O objetivo principal, é trazer uma boa experiência para mulheres no eSports.

Hana: Quando você começou com League of Legends? Foi um jogo que você gostava? Desgostava? Era indiferente? Como você se afeiçoou a esse jogo? Qual seu elo?

Suuh: Eu não lembro exatamente como entrei no LoL, mas minha vida pós LoLzinho é estresse né gente? A gente joga pra se estressar… Comecei a jogar na troca do servidor americano para o servidor brasileiro. Meu Deus… eu jogo desde 2013 e atualmente ainda estou no Ouro 2. Não houve melhora, né? Uma vez cheguei no Platina e isso por que recebi coach, se não.. Eu só fiquei interessada em pegar elo quando descobri que a gente conseguiria ganhar skins.

Mas até então eu jogava para me divertir. Quando comecei, eu jogava no meio mas depois acabei migrando para suporte e comecei a gostar. Já que por mais que os Atiradores falem que não, quem manda na lane é…

Suuh e Hana juntas: É O SUPORTE.

(falamos juntas, amo Suuh <3)

Jogar de suporte não é assim tão simples. Justamente por não farmar, temos que estar cuidando das informações no mapa, cuidar de 9 pessoas, tanto aliados quanto inimigos. É complicado.

Quando vim para o League of Legends eu jogava Dota e quando conheci LoL achei colorido demais uma coisa meio “meh“. Quando eu vi, eu nem jogava mais Dota.

Hana: E o seu campeão favorito, qual é?

Suuh: Olha, eu fico entre três, na verdade. Lulu, Janna e Soraka. Elas são a perfeição do LoL!

Hana: Menina, todo mundo vai te criticar, você vai ser muito criticada, viu? Lulu é muito detestada.

Suuh: Essa é a questão, eu devo dizer. Sou mono Lulu e na minha stream tem lá, “imite a Lulu”, um sistema que as pessoas vão comprando com o as moedas virtuais e eu ainda devo a eles imitar 60 vezes a Lulu. Já sai roca da stream por imitar ela… Só que a Lulu é assim, ou você pega ou você bane. Quando saiu a Lilia as pessoas pediram um campeão monstro, feia.

Mas eu penso, se você quer um monstro, TEMOS A LULU! Tá certa que ela é fofa. Mas ela faz TUDO, ela é completa, é uma personagem que eu jogaria o dia inteiro. Não que eu já não faça isso na verdade.

Hana: Eu não sei se você vai concordar comigo, mas eu acho a Lulu um dos campeões suportes de peel mais complicadinhos de se jogar BEM. Você concorda?

De forma alguma eu penso assim, as vezes é o polimorfar da Lulu que muda a teamfight… Depende muito da hora que você vai usar as habilidades e é ali que você vai decidir quantas pessoas vai salvar. Eu adoro usar o Q e o E para finalizar os inimigos. Lulu ASSASSINA DE IGNITE, hahaha!

Hana: E sobre a nova temporada. Você gostou dos novos itens? Qual sua opinião sobre eles?

Suuh: Olha, LoL é um jogo que muda de uma hora para outra. Já sofremos com isso antes… olha o novo sistema de runas, por exemplo. Eu ainda não estudei a fundo todos os itens, mas eu vi que tem uns itens bem complicadinhos. Vamos ver, vamos ver…

Hana: Você falou sobre a namorada do seu tio que era surda, me conta mais sobre essa história? Você ainda trabalha nessa área?

Suuh: É… meu tio trocou várias vezes de namoradas e todas eram surdas. Eu trabalho nessa área, sim, atualmente sou interprete de Libras na Universidade Federal de Araranguá, mas eu já trabalhei na câmara de vereadores de São José, uma cidade que fica aqui perto. Já trabalhei em vários lugares, o intérprete trabalha mais como freelancer né?

Sem entrar em política, mas foi assinado que não haveriam mais concursos públicos para intérpretes, então, as pessoas (inclusive eu) ficam com um concurso temporário que dura um ano e depois você precisa fazer outro processo seletivo. Eu trabalho mais de tradutora e intérprete né?

Hana: Sobre essa diferença entre interprete e tradutora, você pode me explicar?

Sim, posso. Nos próprios comentários do vídeo do Daniels tinha gente falando que era a mesma coisa. Mas não é, a traduçao é bem mais complexa, demorada e trabalhosa. Vou explicar com exemplos.

A interpretação é feita ao vivo. Em um congresso, por exemplo… Ele acontece ao vivo e ele precisa de um profissional de libras, ele faz a interpretação ao vivo. Essa interpretação pode ser tanto consecutiva quanto simultânea. Consecutiva é feita depois e a simultânea é ao mesmo tempo.

E a tradução, você tem que pegar um material/mídia, estudar em cima e não usar apenas os termos que você vai estudar. Existem muitas áreas de Libras que faltam sinalização, assim como na vida quotidiana. Ninguém é um dicionário para saber tudo. Você tem certas áreas de especificação e mesmo assim você precisa estudar… e ainda tem outras áreas que você precisa estudar MAIS, por não ter contato. Afinal, todas as profissões são assim né? Medicina, por exemplo.

A tradução tem que ser sincronizada, libras é oficial mas não é universal então você tem que mudar os sinais para cada região do Brasil. Regionalidade é super normal.

Muitas vezes, preciso pesquisar um sinal mais usado em determinada região e preciso me ater a usar as sinalizações certas. Algumas vezes uma palavra não tem sinal e eu preciso explicar o conceito e tem que acontecer ao mesmo tempo e estar sincronizada. A tradução é muito mais difícil.

Normalmente, quando vamos fazer uma tradução é preciso uma equipe, estudar e adaptar. É sempre ótimo ter o público alvo analisando. Olhar bem os sinais. As vezes existem dois sinais para a mesma palavra e dependendo do ângulo, um sinal também fica melhor que o outro.

A tradução também tem espaço para erros mas na interpretação não.

Hana: E você acredita que poderiam haver jogadores surdos ou com DA (deficiência auditiva), qual sua opinião sobre isso?

Suuh: Eu acredito que não seria um problema, caso, exista acessibilidade. Eu gosto muito de uma frase que diz: A deficiência não está na pessoa e sim no local. Por exemplo, se você tem um time que tem pessoas surdas dentro, claro que a comunicação por voz é mais rápida. Mas, se você tem um time surdo, eles contam com sinergia e você se acostuma a jogar com eles… Você acaba tendo uma sinergia que você não precisa nem falar. Eles tem o costume de usar chat e pings. Claro que parar para digitar é uma coisa muito ruim, porém, isso é muito trabalhado em questão de estratégia.

Existem times de surdos ou com pessoas com outras deficiências que jogam bem por causa da sinergia. É importante as pessoas terem acesso à informação. Quando você cria uma estratégia, por exemplo, você tem que ter essa estratégia pré-estabelecida. Às vezes só uma palavra já ajuda bastante, os pings também podem ser bem usados. Não dá para colocar todos no mesmo patamar, você jogar todos ali e basicamente falar: “Se vira e joga!”. Você tem que dar a acessibilidade até mesmo para o jogo ser justo para todo mundo.

Hana: Sim, existe esse preconceito que as pessoas tem né? Sempre dizem, não, não deve rolar. É muito importante essa pergunta. E saber que existem vários times é muito bacana.

Suuh: Eu, por exemplo, participei de um time de surdos chamado “Five Dragons”, no time tinham 4 surdos e eu era ouvinte, as vezes três e somente eu ouvinte e a gente conseguia se comunicar super bem. Quando a gente errava não era por falta de comunicação por fala. É aquilo né, impossível não é. Se os times quiserem fazer uma line-up de surdos com estrutura ou colocar surdos em um time já existente, por que também não da para só separar, eles vão jogar bem. Não vai ser o problema de comunicação que vai atrapalhar.

Hana: E você acha possível que a Riot Games possa fazer a interpretação simultânea durante campeonatos?

Suuh: Olha… (inclusive Riot me contrata) é assim, eu sou parceira da Riot, faço parte da academia de Piltover, fui convidada por causa da criação de conteúdo acessível. Então, a Riot entende que essa inclusão é necessária. A empresa entende que é necessário, também teve uma grande discussão sobre legendas, por que até então antes os vídeos eram legendados quando vinham de fora do Brasil para cá, mas agora temos vídeos legendados dentro Brasil para o Brasil.

Acredito que essa questão de ter uma interpretação de libras não está longe de acontecer, inclusive RIOT vocês me tem aqui DENTRO DA ACADEMIA DE PILTOVER. E esse é um ponto muito, muito, muito interessante. Vou até fazer um adendo agora, intérprete de libras tem especializações, claro que todo interprete é capacitado e ele pode fazer sim na área que ele quiser, mas ele precisa ter ética para dizer sim e não. Por exemplo, já me convidaram uma vez para fazer um congresso de neurociência, eu falei: “Muito obrigada, porém não.” Vai muito além da minha capacidade. Interpretar Física, por exemplo… Eu não conseguiria. Já fiz matemática para escolas que é muito diferente de um congresso de matemática, né gente? Então, você tem que saber seu limite, você tem que sempre pensar que é a vida de uma pessoa que você tá mexendo. Nós somos a informação da pessoa.

Você tem que saber que é capaz naquela área. Por exemplo, existem pessoas que não podem ver sangue e o que um intérprete que tem problemas com sangue faria na área da saúde?

E ser interprete no eSports… por que eu digo que sou uma interprete de eSports capacitada? Eu cresci a vida toda jogando, eu vivo isso. Então, provavelmente se uma pessoa que nunca jogou nada na vida dela fosse interpretar, ela não seria capacitada. Para narrar um campeonato a pessoa vai apanhar, vai ter dificuldades. Isso é muito importante e algumas pessoas acham que não.

Eu consigo atuar na área jurídica, por exemplo. Eu sei os termos. Não adianta você ir no local e não saber os termos. Eu sou intérprete na faculdade, eu posso pegar qualquer tipo de demanda. Atualmente eu interpreto uma aula de banco de dados. Quando eu entrei, eu sentei com o aluno e falei: “Socorro!” Eu falei para ele que havia dito que não era minha área de interpretação, que eu não sabia os sinais. Ele me respondeu que não tem problema nenhum, que não existia os sinais, nem muitos termos para essa área e que a gente iria se ajudando. Eu acredito que as pessoas tem que ter a humildade de chegar e perguntar. Existem muitos profissionais que infelizmente não fazem isso. É melhor falar e não passar vergonha que passar vergonha.

Sobre a parte da Riot, por isso fazer parte de meus projetos também. Nesse ano ainda eu comecei um estudo e um projeto que se chama CBLOL em Libras, onde eu faço análises. Por exemplo, pego onde que seria interessante ter um intérprete, onde não seria, como que faríamos, quantas pessoas seriam necessárias, revezamento… Então Riot, estamos aí!

Agora respondendo sua pergunta, foi muita loucuragem. Primeiro comecei com a Nyvy, e foi graças a ela que consegui chegar no Daniels. Eu já seguia a Nivy e eu sempre falo pra ela, não é puxando saco nem nada do tipo, mas ela é uma mulher super competente e linda que está atuando no cenário do eSports. Ela é um exemplo, uma inspiração, um modelo. É uma coisa que quero pra mim, ser bem sucedida no eSports, sabe? E ela é um amor de pessoa, não é por ela estar com todo esse destaque que ela deixa de ser acessível e querida. Existem pessoas que perdem a cabeça quando esse tipo de coisa acontece né?

Hana: Conheço MUITAS pessoas que tiveram essa mudança.

Suuh: várias, várias…

Hana: Realmente é muito importante uma mulher no meio do eSports, infelizmente a comunidade gamer não é muito aberta para mulheres.

Suuh: Sim, é muito complicado isso. Tenho muito a agradecer a Nivy, foi graças a ela que meu trabalho conseguiu ter uma grande visibilidade e eu estou muito feliz por todo esse reconhecimento. Conseguir chegar à ESPN, ter algumas matérias no UOL… Eu estou desde 2017 fazendo meu trabalho e não é fácil. Não faço para ficar famosa, eu faço para ter acessibilidade no cenário! E ver que isso está chegando e eu estar aqui, na frente, é muito bom não só pessoalmente e profissionalmente, mas também por todo trajeto que eu percorri.

Hana: É muito bom que você abre as portas para outras pessoas que gostariam de fazer o seu trabalho ou pensou em fazer muitas vezes, porém não tinha coragem pelos tapas na cara que provavelmente iria receber.

Suuh: Sim, com certeza.

Hana: E tem algum projeto que você tem trabalhado agora? Alguma coisa secreta ou que pode agregar aqui na entrevista?

Suuh: Atualmente estou trabalhando no meu dicionário de eSports, que consiste em trazer os termos. Não os sinais, eu não faço criação de sinais. Não tem o que as palavras significam né?

Tem muita falta disso, por mais que muitas palavras não tem sinal eu consigo fazer em datilologia e explicar o significado. Eu acho isso muito mais interessante fazer isso agora, do que depois que tiver os sinais, então vou explicando e estou trabalhando também no meu ‘aulão’ de League of Legends que trago em Libras e acontece toda quinta feira no meu canal da Twitch.

Também faço workshops sobre intérpretes no eSports e eu costumo fazer workshop de Libras para trazer informação para pessoas que não têm contato com a comunidade surda, mas tem interesse.

Hana: Você acha que esses sinais podem ser feitos pela Riot Games? Ou você acha que ela pode fazer em conjunto com alguém que já faz? Já que existe essa abertura de fazer novos sinais.

Suuh: Os sinais na verdade, a liga dos surdos já tem esse projeto em parceria com “nome do negócio”, eles já tem o projeto da criação dos sinais e em 2017 quando comecei, eu já havia começado também esse sinalário, já que eu fiz a primeira narração em libras em um campeonato para surdos e foi ali que notei que havia essa necessidade. Mas já que o campeonato daquela época acabou, eu não dei continuidade.

Mas a criação de sinais pode ser feita sim, acredito que a própria Riot pode fazer e oficializar, já que o jogo é dela. Normalmente para criação de sinais você tem que ter uma banca obviamente com pessoas da comunidade surda, não precisam ser só surdos. Mas tem que haver essa participação, já que o foco são eles. Acho que a Riot poderia sim, inclusive seria muito interessante.

Hana: Alguma pessoa já iniciou alguma intriga em seu nome? Ou até mesmo querendo fazer sucesso em cima da comunidade surda?

Suuh: Já existiu o comentário que eu gostaria de fama em cima dos surdos, inclusive isso surgiu dentro da própria comunidade surda. E claramente não é isso, eu tenho trabalhado de 2017 até 2020 e não tenho 100 mil seguidores por causa disso. Mas, se quiserem né? 100 mil pessoas, estou aberta. E se as pessoas quiserem falar, não tem problema. Mas já surgiu sim, por questões de eu encher o saco, como algumas pessoas falaram, por exemplo, quando eu queria fazer sinalário, eu pedia muito para pessoas surdas participarem por faltar mesmo e não tinha como eu chegar e criar sozinha. E esse foi um dos motivos que não dei continuidade ao meu projeto, já que se as pessoas estão achando chato eu fazer esse tipo de coisa, não seria legal eu continuar.

Talvez eu tenha falado da forma errada, poderia ter feito de outra forma, mas naquele momento não foi uma coisa que eu pensei. Mas falaram bastante que eu quero pegar fama em cima dos surdos e eu não tenho fama nenhuma. É uma coisa que eu faço sozinha, minha criação de conteúdo eu faço sozinha. Eu não uso ninguém. É uma coisa que atrapalhou um pouco meu desenvolvimento, algumas pessoas falavam isso e eu desistia de seguir meu conteúdo e não abria a stream. Eu fazia de coração e as pessoas falavam isso. Até que um dia eu falei: “Ah, se essas pessoas não querem, tudo bem. É meu trabalho. Se as pessoas não querem, tudo bem!” Mas também existiam pessoas que me passaram energias positivas, existiam pessoas surdas que ficavam mal e jogavam sozinhas. Eu moldo bastante meu público nas minhas streams, eu estou fazendo stream para fazer meu público feliz e para EU ficar feliz.

Se tem alguém falando coisas que estão incomodando a mim ou ao meu chat, eu não quero saber, se estiver sendo tóxico e ofendendo alguém, vai ser banido. Números não me importam.

Eu tenho meu trabalho fora dos meus projetos, não vivo de stream. Não criticando pessoas que fazem isso, não julgo. Muitas vezes a gente tem que abaixar a cabeça para algumas coisas para dar continuidade aos nossos sonhos. Já teve gente que me doava dinheiro que ficou incomodada e eu fui explicar no privado. A pessoa não se interessou, então agradeço, mas não precisa continuar me apoiando dessa forma.

Hana: “Eu concordo totalmente com você, sou uma streamer trans e preta. A gente sabe que só pelo fato de ser preta a gente passa por algumas coisas a mais, as pessoas esperam muito que você force o tempo inteiro para ser engraçado ou force situações no RP, já que outras pessoas fazem assim, você também tem que fazer. E uma coisa que sempre deixei para o meu público foi: minha opinião VAI ser falada e se você se sentiu triste ou chateado com isso, tudo bem. Pode deixar de me assistir. A gente obviamente não pode dar uma opinião apenas para machucar os outros, mas se é positiva e soma em alguma coisa, essa opinião passa a ser sua voz.

Sempre deixei isso muito claro, tem gente que fala: ‘Ah, você tem só 5 pessoas te assistindo!’ Tá, mas eu já tive 40 e isso nunca mudou. Hoje em dia eu tenho menos mesmo. É uma coisa que todo mundo deveria colocar na cabeça, você não precisa colocar uma máscara e um personagem o tempo inteiro, você pode dar sua opinião desde que não faça mal a alguém. As pessoas que tem opiniões tóxicas existem e elas estão fazendo sucesso e crescendo com o público tóxico delas. Eu fico muito triste com pessoas que chegam e falam: ‘Nossa, mas você está ao vivo e eu vou ficar.’ E a gente tem esse direito de falar: ‘Não, eu não quero. Muito obrigada mas eu passo.'”

Suuh: Sim, o chat é o reflexo do streamer. Existem pessoas que não tem conhecimento e apenas acabam reproduzindo. Um guri uma vez na minha stream falou: “Ah o traveco”. Eu parei a stream e disse para que ele não fizesse mais, é um termo ofensivo, pediu desculpa e nunca mais falou no chat. É importante passar essa informação. Após a explicação, a responsabilidade de continuar reproduzindo isso ou não é da pessoa. Agora depende dela.

Como minha stream é acessível, as pessoas que ficam estão dispostas a se desconstruir, eu sempre deixo meu privado aberto para perguntas. Se a pessoa está aberta a aprender e está interessada sempre chamo para conversar.

Hana: Sim, sempre estive aberta e existe dias que realmente a gente não tem paciência. E é um direito da pessoa. É um direito nosso. E eu acho que as pessoas não entendem que streamer tem que abaixar a cabeça pros outros por ser uma figura pública. Tenho 8 pessoas mas essas pessoas são meu público, sabe? E se dá dinheiro ou não, o problema é da pessoa, entende? Até por que ser streamer não é ter 10 mil pessoas assistindo, depois deixar stream de lado por ter outros projetos entende?

Suuh: E se você quer trabalhar com isso você tem que trabalhar como se estivesse na sua casa, se você deixa os outros fazerem baderna na sua casa então é baderna que você vai ter.

Hana: E sobre o feedback positivo? Muita gente te deu força para continuar? Como que foi?

Suuh: Olha, tenho sim esse feedback positivo não só em questão de visualização. O ‘aulão’ foi um negócio que repercutiu muito. Para ter ideia esse aulão chegou no Yoda e quer você goste ou não do Yoda ele é uma referência. Quando chegou nele, ele teve uma interação e teve um feedback positivo em questão de engajamento e isso é muito bom. Por exemplo, o Breno é um espectador surdo que eu tenho que está sempre lá, ele participa mais que o time que precisava participar, ele participa de tudo.

Teve muita gente que participou também: Ken Harusame, Juc da FURIA. Foi muito mais que isso, conseguir levar informação para pessoas da comunidade surda e também trazer pessoas do cenário do LoL para conhecer a comunidade surda. Para eles verem que existem pessoas que não tem informação de LoL hoje. O Juc, por exemplo, é coach, sabe? Então ele ter esse contato a essa modalidade diferente acrescenta a essa vida profissional e na vida pessoal em questão de empatia. O Ken mesmo já trabalha com isso a muito tempo também, ele é parceiro da Riot e também faz ‘aulão’. Ele faz um feedback muito positivo.

Eu tenho a pretensão de fazer um aulão mais avançado que se tudo der certo vai ter participação da Rensga, eu sou interprete na Rensga, eles realmente se importam nessa questão de acessibilidade. Até os memes eles colocam interprete de libras, eles realmente são ótimos. Foi uma repercussão muito grande, atingiu os dois públicos, as pessoas da comunidade surda e as que não são da comunidade surda que aprenderam muitas coisas, o básico que os surdos que jogam existem, eles tiravam suas dúvidas sobre legenda e é um espaço para tirarem essas dúvidas.

Hana: Mas mulher, legenda não é mais fácil?

Suuh: Existem surdos oralizados, existem surdos não oralizados, existem pessoas que escutam de um lado só e outros não. Tem muitos surdos que não aprendem português e têm surdos que aprendem português por conseguirem ter mais contato.

Para o surdo que não consegue entender o português oralizado, existem pessoas que confundem a questão de ler e compreender, eles acabam lendo por que sabem ler, mas não conseguem entender. É mais ou menos isso, a legenda é para surdos que tem contato com o português e libras é para pessoas que só entendem libras. Entendeu? A legenda ajuda bastante mas não é 100% perspicaz.

Hana: Você já esteve no competitivo né? Você já sofreu algum problema? Assédio moral? Teve dificuldades em entrar?

Suuh: Olha, eu demorei um pouco a entender que sim. Porque, pra mim, nunca tinha acontecido, mas depois, vendo algumas outras coisas eu percebi que sim, eu já tinha tido.

Um dos problemas foi com um time que eu participava e era a única menina do time. Eu estava no Ouro e alguns outros eram Diamante e Platina. Em um primeiro momento, não me levavam a sério por conta do meu rank e, depois disso, por eu ser mulher. Não me lembro bem mas aconteceu algo semelhante a uma peneira e jogaríamos pra saber quem seria titular desse time. Eu pensei:”Então vamos lá!” e me empenhei bastante. Foi a primeira vez que eu realmente estudei o LoL e deu muito certo. Eu era main Lulu, Soraka… No dia do jogo, eu ainda pensava que eles não tinham medo de mim, mas logo ficou muito evidente que tinham. Eles baniram Soraka e Janna e pickaram Lulu na tentativa de me deixar sem ter o que jogar. Eu pensei “Gente, de 5 bans vocês me tiraram 3? Não parece a atitude de alguém que não está com medo.” Felizmente, eu estava preparada e tinha passado algum tempo estudando Leona, mesmo não gostando de jogar com suportes tanque. Eu vi várias gameplays, estudei durante uma semana… Eu sabia que eles não pegariam ela, ela nem passava pela cabeça deles.

Enfim, nesse primeiro jogo eles pegaram Lulu e eu acabei pickando Morgana, mesmo não jogando com ela. Mesmo assim, joguei muito bem pra defender minha honra e não morri nenhuma vez. No fim, acabei me sobressaindo sobre eles, pontuei bem mais do que eles e disso só surgiu mais toxidade. Começaram a falar que eu estava me envolvendo com o dono do time, porque eu não conseguiria tantos pontos por conta do meu elo. Basicamente ficaram tentando tirar o meu mérito.

Foi aí que eu falei: “Então vamos jogar outra!” E eles aceitaram.
Nessa partida eu peguei Leona e foi um massacre… Depois da derrota deles, 6 integrantes saíram do time.

Eu gosto muito de jogar no competitivo mas não me vejo como uma proplayer… Não é algo que eu me vejo sendo. Eu gostaria de ser, mas não é uma prioridade na minha vida.

Outra coisa que aconteceu foi quando eu era Ouro 1 e eu tive um coach que me ensinava a jogar de Pantheon Top com Ignite. Com esse pick eu consegui subir para o Platina e aconteceu uma situação triste. A galera não gostou e enviou ticket pra Riot me acusando de ter sido “jobada”… Isso tudo porque subi 1 divisão. Pra poder provar que não tinha outra pessoa jogando na minha conta, eu tive que abrir live e jogar com o Pantheon.

Mesmo depois de tudo isso, o sujeito que ficava me acusando e me perseguindo começou a me mandar ir “lavar louça”, me mandando parar de jogar. Eu pensei: “Se ele está tão bravo só porque subi para o Platina, imagina se eu chegasse ao Diamante? Ele vai fazer o que?”

Tem algum jogador profissional que você acompanha? Um time? você acompanha o competitivo do League of Legends?

Então, eu meio que torço para a Rensga. E meus jogadores favoritos também são da Rensga.

Agora falando sério, na verdade eu nunca fui muito envolvida nessa questão toda de times e competitivo porque a parte que eu mais trabalho demanda muito tempo para que eu chegue nessa parte de trabalhar com competitivo e ter um contato mais próximo com os profissionais. É tudo muito complicado pra mim pois eu tenho vários focos. Por exemplo, a Harumi da Rensga.

Eu não conheço muito por ela estar entrando agora mas tenho muito interesse em conhecê-la melhor por ser uma mulher que está entrando no competitivo. E mesmo não podendo ter tanto contato com o competitivo, eu creio que apoiar os novatos como a Harumi é o melhor a se fazer pra mim. O brTT por exemplo, já está muito bem estruturado no competitivo, enquanto a Harumi ainda está se introduzindo. Voltar a minha atenção para ele não vai mudar na carreira dele. Agora no caso da Harumi, pode ser que eu ajude ela a se consolidar de alguma forma.

Bom pessoal foi isso, sei que o texto foi longo, mas a gente precisa trazer a maioria das informações. Esse tipo de conteúdo é muito relevante e qualquer visibilidade que a Suuh conseguir, ela pode transformar em mais pessoas conhecendo nosso universo do game de uma maneira informativa e abrangente. Eu agradeço muito a Suuh e a todos que leram até aqui. Espero que possamos nos ver o futuro, e mais, espero que mais pessoas conheçam essa graciosa, inteligente e preciosa que temos no nosso cenário!

Sucesso Suuh!

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