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Opinião

Carta aberta à comunidade sobre o caso Jovirone

Bryanna Nasck, uma das maiores influenciadoras da comunidade LGBTQI+ no mundo gamer, escreveu uma carta aberta à comunidade tratando do caso Jovirone.

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A PlayTimes entrou em contato com uma das maiores influenciadoras da comunidade LGBTQI+ do mundo gamer, Bryanna Nasck, para escrever uma carta aberta à comunidade sobre o caso de transfobia do streamer Jovirone.

Bryanna é uma empreendedora, Youtuber, gamer e trans não-binária. Ela relata que esta terça-feira (8) foi um dia muito intenso e que ocupou boa parte dele para lidar com o ocorrido. Isso se dá pelo senso de justiça que a influenciadora tem e também pelo fato de que ela se sentiu muito abalada com tudo que está acontecendo.

Por Bryanna Nasck: Carta aberta à comunidade sobre o caso de transfobia do streamer Jovirone

O Brasil é o pais que mais mata travestis e mulheres trans em todo o mundo. Líder no rank desde que a monitoração mundial começou a ser feita em 2008 pela organização europeia TGEU que desenvolveu o projeto Trans Respect onde fazem uma monitoração de como o mundo lida com a transfobia. Segundo a ANTRA no ano de 2020 tivemos um aumento de 40% no número de assassinatos motivados por transfobia. 

E é importante ressaltar que a transfobia não se resume ao ato final de ir e matar alguém devido ao gênero. De odiar e quere a morte de alguma pessoa trans. Precisamos falar da transfobia de base, que é aquela que permite que existam pessoas que se acham no direito de olhar para uma pessoa trans e achar que ela não tem o direito de ir e vir, de existir. 

Isso tudo começa com o senso comum que desumaniza nossos corpos, que propaga a ideia de erro e enganação. Que reserva nossas existências a realização de fetiches sigilosos, mas nunca de estar em um jantar de família, lhe atendendo em uma farmácia e trabalhando ao seu lado. É a normalização do processo de desumanizar nossas existências em todos os hábitos possíveis e isto começa a partir da naturalização das brincadeiras, trocadinhos e piadas com nossos corpos e vivências. 

Não somos mágicas para querer enganar ninguém e nem muito menos palhaça para olharem para mim e isso ser motivo de piada. Eu lutei tão vigorosamente para que o caso do Jovirone não passasse despercebido, pois vivemos em uma sociedade onde homens brancos, cisgêneros (pessoas que não são trans) e ricos. Podem fazer o que quiser sem nenhuma real punição ou qualquer coisa que os realmente atinjam. 

Eles fazem o que quer e com uma desculpa padronizada e medíocre, que provavelmente foi por pressão dos patrocinadores acha que está “Tudo bem”. Não está tudo bem, transfobia é crime e é vista pela lei e pelo STF como tal. A FNATC deu uma nota para e-sports da globo onde basicamente diz ser contra qualquer ato de preconceito e etc. Mas na mesma frase diz “Ele se desculpou, aprendeu” será que aprendeu mesmo ? Ou apenas exigiram que ele fizesse TRÊS declarações pública para acalmar os ânimos e e dar um respaldo para seus patrocinadores dizerem que “Ele errou, mas aprendeu e não temos nada a ver isso e nem concordamos”. 

Vivemos uma hipocrisia gigantesca dentro do cenário gamer. Repleto de machismo, misoginia, racismo e transfobia. Vale a pena lembrar quando Flavi teve seu instagram, ferramenta de trabalho, deletado por ataques organizados de uma frase retirada de contexto. Também da Gabriela Cattuzzo recebeu ataques em massa  por que fizeram compilados dela respondendo de forma sincera e direta. A comentários machistas, misóginos e assediadores. Perdeu patrocínio da Razor mais do que rapidamente. Vale também lembrar quando a Isadora Basile foi DEMITIDA pela microsoft pois ELA estava sofrendo assédio do público machista e misógino que a empresa tem. 

Perceba que o que está sendo discutido aqui é a discrepância das situações. Para uma mulher, preto ou pessoa LGBTQ+ ter sua vida virada de cabeça para baixo, perder patrocinadores e se ver pagando caro por seja lá o que acharam que ela fez de errado, é rápido e direto. 

Agora por que para um homem branco, cis e rico tudo é tão lerdo. É tão pensando, sua índole de “pessoa boa” é trazida por todos. Sempre há um PORÉM quando é um homem adulto se mostrando uma pessoa preconceituosa e literalmente alguém ruim ? 

Fico aterrorizada como as pessoas olham para homens adultos como se fossem crianças que precisam de ser educadas e não punidas. Estão acostumados com a impunidade. Falam e fazem o que querem. 

Mas desta foi diferente, nós pessoas trans adquirimos visibilidade. Nos tornamos protagonistas das nossas próprias histórias. E não vamos mais admitir que pessoas como o Jovirone propagem comentários preconceituosos que faz a manutenção da estrutura transfobica no qual vivemos. Ele tem a capacidade de influenciar milhares de pessoas e não pode usar desta posição levianamente. 

Nunca teve uma pessoa trans que se levantou para falar sobre essa temática no meio gamer, talvez por medo de do que poderia perder. Mas prefiro imensamente continuar com meu público pequeno e fiel. Do que virar as costas para algo que não afeta apenas a minha vida, mas a de outras milhares de pessoas. Não preciso de marca alguma para sobreviver e não temo qualquer ação que vise me excluir de eventos ou participações em ações com marcas. Pois meu objetivo vai muito além da recompensa monetária, quero existir sabendo que minha vida e meu trabalho foram úteis não apenas para me prover conforto. Mas ter a paz de espirito de que eu fiz tudo que estava ao meu alcance para modificar uma realidade horrível que eu e outras milhares de pessoas sobrevivem todos os dias. 

Obrigada por entrar em contato e espero que mesmo neste ponto, essas considerações sejam uteis. Se não para essa, para futuras reportagens. Pois tenho certeza que não será a última vez que irei estar que estar pontuando a transfobia de alguém com destaque no cenário gamer. 

Abraços, 
Bryanna Nasck 

#TransfobiaNãoÉPiada

A FNATIC, time do qual Jovirone faz parte como streamer, publicou nesta quarta-feira (9), uma nota oficial após as cobranças por um posicionamento feitas por parte da Bryanna e da comunidade. Você pode conferir a nota abaixo:

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Formado em economia, ator e apaixonado por games!

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